#1- Diário de bordo: Entre a ética e a moral: o que(m) é o psicanalista?

Atualizado: Fev 8

No começo da semana, anunciei em meu instagram pessoal duas coisas que, na minha concepção subjetiva, foram extremamente importantes para mim: a primeira delas é que concluí minha primeira formação em psicanálise, a segunda é que agora forneço atendimentos terapêuticos de abordagem psicanalítica.


Quando postei meu cartão muita gente ficou feliz.


Mas, algo de muito interessante também aconteceu: muitos (futuros) colegas de profissão se incomodaram com a minha formação em psicanálise e com o inicio do atendimento terapêutico em psicanalise. Os que se incomodavam, começaram a fazer fofoca, a mandar indireta no twitter, e acreditem: até me xingar (de nomes bem pejorativos) em grupos particulares.


Eu sempre acreditei na minha inteligência e na minha (como diz minha amada orientadora) potência de arriscar. Adoro essa qualidade que ela atribuiu à mim, porque é justamente isso que me move a ser cada dia mais dona do meu destino e ser, portanto, uma psicanalista ainda melhor. Mas para quem não está entendendo nada, a grande questão que se impõe aqui está na seguinte consigna: "Como pode, alguém que ainda não se formou em psicologia, começar a ofertar serviços terapêuticos?".



1. ÀS QUESTÕES JURÍDICAS: A psicanálise não é reconhecida pelo Conselho de Ética em Psicologia, não estando, portanto, submissa às ordens e legislações do mesmo.


Em outras palavras: psicanálise e psicologia NÃO são a mesma coisa. Não estão vinculadas. Não são interdependentes.

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Fazer um curso de formação em psicanálise, nunca esteve no patamar de uma possível escolha. Ser psicanalista sempre esteve na ordem das certezas que tenho na vida.

Assim, desde o meu terceiro período no curso de graduação em psicologia (em 2018),que foi onde me encontrei com essa tal psicanalise, me apaixonei.


Decidi começar a me movimentar e iniciar minha formação em psicanálise: comecei minha análise (o principal pilar para se ser um psicanalista), comecei a fazer pesquisa e participar de projetos de extensão e eventos cuja temática era a psicanálise, fazia alguns cursos específicos, participei de vários grupos de estudos, e passava algumas boas horas escrevendo sobre psicanálise - sem nenhum propósito especial.


Uma coisa que pouca gente sabe (ou finge que não sabe) é que a formação em psicanálise não depende da sua formação em psicologia, ou seja: você pode ser um psicólogo que trabalha com a metodologia psicanalítica, ou você pode ser um médico, nutricionista, enfermeiro, dentista, um "zé ninguém" que faz uma formação em psicanalise e se torna um psicanalista.


É confuso e um pouco contraditório, afinal, a psicanálise é um saber extremamente presente nos cursos de psicologia. Isso acontece porque existem alguns pontos de tangência entre os dois saberes (como por exemplo, ambos se dedicam ao estudo da psicopatologia), entretanto, um psicólogo jamais pode fazer referência e associações entre essas duas ciências. E isso quem diz não sou eu, é o código de ética em psicologia:


Art. 2º – Ao psicólogo é vedado:

f) Prestar serviços ou vincular o título de psicólogo a serviços de atendimento psicológico cujos procedimentos, técnicas e meios não estejam regulamentados ou reconhecidos pela profissão;


Temos então que, um psicólogo que se considera psicanalista, terá que fazer uma escolha: ou ele é um psicólogo que trabalha com psicoterapia de vertente psicanalítica ou ele é um psicanalista.


Um exemplo simples e prático do que estou tentando dizer aqui é o seguinte: no meu cartão, que linkei logo acima, me nomeei como sendo psicanalista e não psicóloga. Afinal de contas, eu não sou psicóloga, sou psicanalista. Ofertei meus serviços na posição de psicanalista, não de psicóloga.


Minha amiga Aline, psicóloga formada, com CRP em dia, e que trabalha com a metodologia psicanalítica deve, segundo as normas do Código de Ética, escrever em seu cartão "Psicóloga que trabalha a psicoterapia de método psicanalítico" - e, ao lado, ela acionaria seu numero de registro.

Entretanto, ela em tempo algum poderia escrever "Psicóloga e Psicanalista" - e junto a isso acionar seu número de registro. Isso seria antiético, passível de denúncia e punição.


Mas no caso dessa minha amiga, ela preferiu deixar só como "Psicanalista", sem CRP (mesmo pagando por ele, rs). Achei a escolha excelente.


Espero que, até aqui, tenha ficado claro a diferenciação do porque eu posso prestar meus serviços de terapia psicanalítica.


Mas também tenho uma importante ressalva a fazer: o fato de eu ter condições de fazer uma formação em psicanálise diz de um lugar de privilégio muito grande que ocupo. Os cursos de formações são caros, as viagens são caras, os livros são absurdamente caros. E isso, é sim uma questão a ser discutida: dentro das universidades que formam os psicólogos, dentro dos centros de formações dos psicanalistas, dentro do Conselho Federal de Psicologia e em outras instâncias.


Desse modo, há vários pontos a serem discutidos. E pretendo escrever mais sobre isso.


Mas, continuando...


Conversando mais cedo com uma amiga, ela me questionou acerca da obrigatoriedade de ter uma graduação para fazer o curso de psicanálise, e eu respondi: não é necessário que você seja formado em nada para fazer cursos de formação em psicanálise. Mas vou citar aqui, um trecho onde podemos comprovar que a psicanalise não é uma profissão regulamentada:


"A Psicanálise não é uma Profissão Regulamentada no Brasil, e em nenhum outro país do mundo, o que quer dizer, entre outras coisas, que não existe nenhum Curso de Graduação Superior em Psicanálise autorizado ou mesmo reconhecido pelo MEC. Por outro lado, quando o Ministério do Trabalho e Emprego reconheceu a ocupação de Psicanalista no Brasil, conforme CBO n.º 2515-50 não fez nenhuma exigência quanto à necessidade de Curso Superior para que estes profissionais pudessem desempenhar esta atividade."


2. ÀS QUESTÕES ÉTICAS: Se a psicanálise não é regida pelo código de ética do psicólogo, uma vez que ela não é psicologia, qual é a ética da psicanálise?


A ética da psicanálise é considerada como uma inovação trazida por Jacques Lacan, uma vez que ele propõe que a psicanálise é mais do que um conjunto de técnicas e procedimentos repetitivos, sendo então, a ética uma postura colada ao próprio exercício da ciência: a psicanálise é uma ética, por si só.


E a ética é distinta da moral.


A moral diz sobre os costumes, sobre um conjunto de valores sociais e normas que estão inseridas e integradas dentro de uma cultura/sociedade, e que são impostas à nós.


É o famoso "isso pode, aquilo não. Isso é proibido, essa coisa não". Motivo pelo qual muitas vezes, sentimos o mal-estar e o constrangimento quando fazemos algo da (i)moralidade.


A ética por sua vez se a distancia da moral, uma vez que ela se refere a reflexão sobre os fundamentos das nossas ações. A ética é então a apreensão da singularização do eu em relação a Lei (ou, com ao mundo exterior).

O que define então, o psicanalista, é sua própria ética: não importa seus títulos, suas honrarias e suas premiações, mas sim, sua postura enquanto psicanalista - que atua e fala.

A ética diz sobre ser radical, sobre não ceder, não ser minoridade e não ser submissão. Deve-se então, a partir da postura ética, voltar-se a um momento de reflexão e fundamentação das nossas ações, fugindo das amarras da moralidade, rumando à então, seu desejo.


É neste momento que cheguei ao meu ponto de discussão e de implicação desse texto: fazendo um retorno ao início, qual é o grande incômodo que você sentiu ao perceber que eu começaria meus atendimentos antes de ter um diploma dizendo que cumpri minha carga horária nas mãos, uma vez, que como já visto, não há nada de errado nisso? qual a força desse seu grande incômodo que fez com que você fosse me criticar de forma abrupta, mandando indiretas em uma rede social e me xingando em grupos?

Será que isso é fonte da "moralidade do estudante de psicologia", que, crê veemente que a boa prática depende de uma sequências de números contidas num registro?


Lacan, em seu texto chamado "Do 'Trieb' de Freud e do desejo do psicanalista" de 1964, diz que o moralista é aquele que acredita em propósito, que defende a salvação da angústia dizendo que o sujeito tem um lugar no mundo. O analista entende que a vida não tem sentido e ela não precisa ter, e ainda sim é possível fazer muita coisa, ainda que sem um sentido para a vida. Para tanto, é fundamental que o analista não possua moral, e sim ética.


Trazendo essa reflexão para as implicações que fiz logo acima, consigo traçar algumas coisas. Não me é estranho que os moralistas que fogosamente me atacaram acreditam que o exercício de uma ética analítica e de uma boa prática clínica só funciona se for mediada e estruturada por MORALIDADE, instituições e protocolos gerais de educação e ensino antiquados. O que me soa um pouco contraditório, à medida que os moralistas também criticam as instituições - de modo correto, na minha concepção.

Eis uma ambiguidade: a crença que a "salvação da angústia" é institucional, e a crença que se não houver mudanças na instituições estaremos seguindo a lógica do "rabo da lagartixa" - chegamos perto de algo, e esse algo se desprende, e foge. E corremos, novamente, atrás da lagartixa, que soltou seu rabo. E que está prestes a soltá-lo outra vez.



3. COMO SER UM ANALISTA?: Se qualquer um pode fazer uma formação em psicanálise, qualquer um pode ser analista?


Na realidade, existem algumas instituições psicanalíticas que seguem uma enorme quantidade de regras e de critérios (como fazer análise com um analista da instituição por 5x na semana, por exemplo) para que você se tenha um título de psicanalista.


O que para muitos (principalmente para quem segue a escola francesa) não passa de uma perversão institucional, bem como nos lembra Erik Porge em seu livro "Fundamentos da Clinica Psicanalítica".


O próprio Lacan, desmembrado da Associação Psicanalítica Internacional (IPA), propõe a criação de uma escola - local de transmissão e passagem, que, à posteriori, levou o nome de Escola Freudiana de Paris (EFP), afirmando que: o analista deve autorizar-se de si mesmo e de alguns outros.


Essa polêmica frase abala as estruturas e põe em cheque: quem então, poderia exercer a psicanálise?


Dessa forma, podemos dizer que Lacan nos propõe: a) a responsabilização direta do sujeito através de seu desejo de tornar-se analista; b) indaga o sujeito acerca de sua preparação para enfrentar os problemas da profissão; e c) elide uma desresponsabilização do sujeito em atribuir sua capacidade ao conhecimento dos mestres ou da ciência à qual se filiou, ao mesmo tempo em que não deixa de referenciar aos outros o reconhecimento da conclusão de sua formação¹.


Entretanto, apesar da polêmica e importante contribuição de Lacan (que abre caminhos para muitas reflexões), Freud em 1913 e em 1912, nos seus escritos "Sobre o início do tratamento" e "Recomendações aos médicos que exercem a psicanálise", irá dizer que o psicanalista deve estar apoiado em um tripé fundamental para exercer a terapia analítica:


1. A análise do analista: Para você ser um analista você deve fazer análise;


Nenhum psicanalista avança além do quanto permitem seus próprios complexos e resistências internas; e, em consequência, requeremos que ele deva iniciar sua atividade por uma auto- -análise e levá-la, de modo contínuo, cada vez mais profundamente, enquanto esteja realizando suas observações sobre seus pacientes. Qualquer um que falhe em produzir resultados numa auto-análise desse tipo deve desistir, imediatamente, de qualquer ideia de tornar-se capaz de tratar pacientes pela análise (FREUD, 1910, p.130 - As perspectivas futuras da terapêutica psicanalítica).

2. Supervisão clínica: A supervisão clínica ocorre entre um supervisando (menos experiente na prática clínica) e um supervisor. O primeiro apresenta, da forma mais detalhada possível, as sessões que transcorreram até a data de supervisão, buscando oferecer o maior número de detalhes da sessão, bem como as impressões transferências e contratransferências percebidas. A principal função da supervisão e oferecer ao supervisando a habilidade de percepção de suas limitações, bem como, de suas dificuldades.


Segundo o dicionário de psicanálise de Laplanche e Pontalis supervisão é: "uma psicanálise conduzida por um analista em formação e da qual presta conta, periodicamente, a um analista experimentando, o que guia na compreensão e direção do tratamento e o ajuda a tomar consciência de sua contratransferência"



3. Formação permanente: A psicanálise não se esgota, e não se termina. Há sempre um a mais para ser desvelado. Dessa forma, torna-se fundamental o estudo permanente e contínuo da psicanálise, bem como o estudo da sua aplicação em diferentes contextos, sociedades e suas atualizações;


Assim, concluo meu escrito dizendo que, a minha preparação para me tornar uma psicanalista começou em 2018 e teve um de seus primeiros fins agora, em 2021. Estamos em construção e formação contínua. Devemos fazer análise continua. Devemos escolher nossos supervisores com muito cuidado e também afeto. E por isso eu digo: estou mais pronta do que nunca!


Pronta para aprender, para errar, para brincar, para me reerguer, me reconstruir e também para ser responsável pela minha escolha e desejo de ser analista, como bem nos lembra Lacan.


Minha agenda está aberta, e você pode me contatar por aqui!

Ou, por aqui!


Gratidão por ler até aqui. Qualquer dúvida me ponho à disposição.


Esse texto faz parte da sessão "Diário de bordo: ser-fazer na psicanálise". Por isso, ele tem um teor mais explicativo e teórico. Ele narra minha trajetória e minhas descobertas dentro desse universo infinito da psicanálise. Diz sobre meus estudos, experiências e angústia dos desencontros.


© 2021 por Julia Alves.

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